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Quatro Rodas n° 319 - fevereiro de 1987

 

Reportagem: Douglas Mendonça

 

Briga em família: Passat e Del Rey

 

É uma briga antiga, que começou em 1974, quando a Volkswagen lançou o Passat para combater o Corcel, e que teoricamente chegava ao fim, com a morte do Corcel II, no ano passado. Tudo indicava que o Passat, que já não vinha bem das pernas, também logo deixaria a arena, e da velha disputa não restariam mais que as recordações dos anos de glória. Só que não foi bem assim que as coisas ocorreram. A explosão do mercado, a partir do Plano Cruzado, encarregou-se de reverter a situação. Com a escassez geral de carros, o Passat acabou voltando com toda a força, e a Ford não deixou por menos: retornou a campo com um modelo despojado da linha Del Rey – um carro que, na verdade, nada mais é que uma versão três volumes, redesenhada, do veterano Corcel.

 

É fato que a velha rixa foi atenuada com a criação da Autolatina: o casamento entre a Ford e a Volkswagen de certa maneira transformou a disputa entre os dois carros, que concorrem na mesma faixa de preço, numa amigável convivência de irmãos, cada um em busca de seu público específico. Ficou claro, porém, que não se trata de irmãos de sangue, como Quatro Rodas comprovou neste comparativo entre um Passat GL Village e um Del Rey L: há marcadas diferenças entre os dois carros e, no cômputo geral, o representante da Volkswagen sai do teste com vantagem.

 

As diferenças começam no estilo, as linhas do Passat, criadas pelo renomado estilista italiano Giorgio Giugiaro e levemente modernizadas ao longo desses 13 anos, ainda se mantêm atuais. Já o Del Rey é menos feliz, com a acentuada desproporção entre as duas imensas portas e as pequenas janelas traseiras.

 

Uma avaliação do interior dos dois carros mostra que o motorista se acomoda mais rapidamente no Passat – seu banco oferece uma vasta gama de regulagens no assento, além da regulagem milimétrica do encosto. No Del Rey, os motoristas mais altos terão dificuldades. Mesmo com o assento totalmente para trás, as pernas ficam entre abertas, em razão do posicionamento da pedaleira, alta e recuada. Essa característica do DelRey chega a incomodar principalmente em viagens, quando é necessário pisar pouco no acelerador e o apoio do pé é feito pelo calcanhar, que começa a doer levemente, exigindo mudanças constantes de posição.

 

 

O painel do Passat... ...e do Del Rey

 

O espaço para os passageiros que vão no banco traseiro é parecido nos dois carros, onde se acomodam razoavelmente duas pessoas – uma terceira, apenas se for pequena. No Del Rey, há um incoveniente perigoso: o sistema de fixação do cinto de segurança, através de uma barra longitudinal, facilmente pode provocar a queda de pessoas menos atentas saindo do banco traseiro.

 

O painel do Passat oferece mais informações, mas sua leitura é confusa, com o marcador de combustível colocado no mostrador do relógio de horas. No Del Rey, apesar de sua simplicidades, o sistema é claro, não causa confusão na leitura. Aqui, as críticas ficam por conta da ausência de luz indicadora do afogador puxado e da iluminação do painel, com uma mistura de luzes azuis e vermelhas que cansam a vista – o que não ocorre no Passat.

 

Os comandos das luzes são alcançados com mais facilidade no Del Rey, pois não existem obstáculos no caminho das mãos. No Passat, a chave das luzes está posicionada atrás do enorme volante de direção, o que obriga a manobras toda vês que se quer acender os faróis. Em contrapartida, o motorista do Del Rey fará uma ginástica muito maior tentando destravar a porta do lado direito, uma vez que o pino está localizado atrás do encosto do banco direito.

 

 

O acesso ou saída dos dois carros pode ser considerado bom, mesmo para os passageiros que utilizam o banco traseiro. No Del Rey, graças às enormes portas, o acesso ao banco traseiro é mais facilitado ainda. Em contrapartida, as portas são pesadas, o que dificulta seu manuseio.

 

Apesar de possuírem a mesma disposição mecânica, motor longitudinal e tração dianteira e suspensão independente na frente e eixo rígido na traseira, os dois modelos possuem personalidade própria. O Passat, desde seu lançamento, destacasse por seu desempenho mais esportivo, enquanto o Del Rey prima pelo conforto e pelo silêncio, sem grandes preocupações quanto ao desempenho. Hoje essa distinção ainda é mantida.

 

O Del Rey é equipado com o tranqüilo e confiável motor CHT, derivado diretamente do antigo motor que equipava o Corcel, mas com modificações de cabeçote, bloco e todos os órgãos móveis internos. É um motor que não prima pela potência, mas de boa elasticidade, que permite que se trafegue tranqüilamente com uma quarta marcha engatada em baixas velocidade, sem trancos nem engasgadas. Graças a essas características, consegue normalmente bons índices de consumo na cidade.

 

 

O motor utilizado pelo Passat pertence à última geração de motores lançada na Europa ela Volkswagen/Audi, incorporando tudo o que há de mais moderno em termos de tecnologia de produção em larga escala de motores. Bem mais potente que o do Del Rey – tem cerca de 15 cv a mais -, esse motor consegue ser “manso” nos baixos regimes de rotação e “valente” quando se acelera fundo, sempre com um baixo consumo de combustível. Assim, quem deseja um carro rápido e ágil, não deve ter dúvidas em escolher o Passat. Em todos os itens de nossa avaliação, ele obteve uma esmagadora vantagem sobre o Del Rey. Até o mesmo no consumo de combustível feito na estrada, agora mantendo-se os 100 km/h, a vantagem foi do Passat.

 

Nesse campo, a única vantagem do Del Rey sobre o Passat foi no consumo em cidade. Nesta avaliação, o Del Rey consumiu apenas 1,2% a menos, o que não pode ser considerado com um resultado expressivo. No restante de todas as outras medições – aceleração, retomada de velocidade máxima e teste de rolamento -, o Passat conseguiu uma vitória indiscutível. Finalmente, na medição do nível de ruído, houve praticamente um empate: ambos são bem silenciosos.

 

  

Del Rey, mais caro

 

Tanto na tabela de preços quanto com os opcionais que equipavam os modelos testados, o Passat GL Village é mais barato que o Del Rey L. O Passat GL custa, com câmbio de cinco marchas, Cz$ 150 922,74. O modelo testado estava equipado com um pacote de opcionais que incluía, entre outros, rádio AM/FM estéreo, espelhos retrovisores externos com controle remoto interno e rodas de liga leve, que elevaram o preço final a Cz$ 160 693,93. Devem ser acrescidos ainda Cz$ 48 208,18 – os 30% do compulsório.

 

O modelo básico do Del Rey L custa Cz$ 151 251,00. O carro testado tinha a mais: pára-brisa laminado degradê e vidros verdes (Cz$ 4 905,00), pintura metálica (Cz$ 2 553,00), rádio AM/FM estéreo (Cz$ 4 543,00) e rodas de alumínio (Cz$ 6 155,00). Com isso, o preço total passou para Cz$ 169 407,00, a que devem ser acrescidos Cz$ 50 822,10 de compulsório. O Passat do teste custa Cz$ 8 713,07 mais barato que o Del Rey. Se for considerado também o compulsório, a diferença sobe para Cz$ 11 326,99.

 

A garantia oferecida pelas duas fábricas é de um ano, sem limite de quilometragem. A Volkswagen garante ainda dois anos para os componentes em contato direto com o álcool. A Ford, em contrapartida, oferece três anos de garantia contra a corrosão.

 

 

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Item

Avaliação

Del Rey

Passat

Desempenho

Vantagem clara e indiscutível para o Passat. Foi bem mais rápido nas acelerações, retomadas e velocidade máxima.

5 7

Consumo

Na estrada, a 100 km/h, o Passat foi mais econômico, tanto carregado quanto vazio. O Del Rey leva ligeira vantagem na cidade.

4 5

Motor

Apesar de ambos apresentarem um mesmo grau de desenvolvimento, o motor do Passat é de concepção mais moderna.

5 7

Câmbio

Ambos de cinco marcha com diferencial acoplado. No Del Rey, os engates não são tão rápidos e precisos quanto no Passat.

6 7

Freios

Muito bom nos dois carros, exigindo pouco esforço no pedal. A ligeira vantagem do Passat está na resposta inicial imediata.

6 7

Direção

Mais rápida e leve no Passat. No Del Rey, respostas mais lentas e, nas manobras, direção mais pesada.

5 6

Estabilidade

Muito melhor no Passat, tanto em curvas quanto em retas. No Del Rey, ligeira instabilidade em alta velocidade.

6 8

Suspensão

Independente na frente e eixo rígido na traseira é a receita de ambos. Apesar disso, o resultado no Passat é mais positivo.

6 7

Estilo

No Del Rey, o típico estilo de um quatro portas, infeliz com duas portas. O Passat, embora também antigo, tem mais harmonia.

5 6

Conforto

No Del Rey, a restrição está no peso das enormes portas e no cinto, perigoso para um tropeço de quem desce do banco traseiro. No Passat, o indispensável, sem luxo.

6 7

Posição de dirigir

Cômoda e agradável no Passat. No Del Rey, posicionamento da pedaleira é ruim, muito perto do banco.

5 6

Instrumentos

O painel do Passat é mais completo, mas a leitura é mais fácil no Del Rey – que mesmo assim, é mal iluminado.

5 6

Visibilidade

Um dos poucos pontos de equilíbrio. Ambos têm boa visibilidade para a frente e para os lados e regular para trás.

6 6

Nível de ruído

Houve praticamente um empate. O ruído dos dois foi quase o mesmo, considerado baixo.

6 6

Porta-malas

Apesar de seu menor volume, o Del Rey (328 litros) tem a vantagem da colocação lateral do estepe. O do Passat é maior (362 litros), mas o estepe está sob o assoalho.

6 6

 

Medições

 

 

Velocidade Máxima (em km/h reais)

 Média de 4 passagensMelhor passagem
Passat 159,4 160,8
Del Rey 142,2 142,8

 

Aceleração

Velocidade

Del ReyPassat
Tempo MarchasTempo Marchas
0 - 40 3,11 2,86
0 - 60 5,891ª / 2ª 5,181ª / 2ª
0 - 80 10,131ª / 2ª 8,251ª / 2ª / 3ª
0 - 100 15,641ª / 2ª / 3ª 12,451ª / 2ª / 3ª
0 - 120 25,951ª / 2ª / 3ª 18,351ª / 2ª / 3ª
0 - 140 -1ª / 2ª / 3ª / 4ª 29,311ª / 2ª / 3ª / 4ª
0 - 400m19,651ª / 2ª / 3ª 18,38 -
0 - 1000m 37,161ª / 2ª / 3ª / 4ª 34,38 -

 

Consumo a velocidade constante (km/l)
Velocidade Del ReyPassat
Marcha ConsumoMarcha Consumo
4013,4514,38
6012,9413,42
8011,3612,29
1009,649,90
1208,007,87
4011,46 11,78

 

Consumo médio (km/l)

  Del ReyPassat
Na cidade 6,52 6,44
Na estrada, a 100km/h, carregado 9,75 9,75
Na estrada, a 100km/h, vazio 10,04 10,66

 

 

Colaboração: Reginaldo Santos

 

 

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